Hotel Velho Chico
VoltarSituado às margens da rodovia BR-101 em Propriá, Sergipe, o Hotel Velho Chico encontra-se permanentemente fechado, marcando o fim de uma era para um estabelecimento que, em seu auge, foi um ponto de referência na região. A sua história é um complexo tecido de glórias passadas, um presente de abandono e um futuro incerto, refletindo a dura realidade de muitos empreendimentos turísticos que não conseguem manter-se com o passar do tempo. Para quem busca hospedagem na área, é crucial saber que este local não é mais uma opção viável, mas sua trajetória oferece lições valiosas sobre a gestão de hotéis e a importância da manutenção constante.
O maior e talvez único trunfo consistente do Hotel Velho Chico, mencionado unanimemente por antigos hóspedes, era sua localização privilegiada. Com uma vista espetacular e panorâmica do Rio São Francisco, o hotel prometia uma experiência visual inesquecível. Todas as habitações, segundo relatos, dispunham de varandas que se abriam para a imensidão do rio, um convite à contemplação. Essa paisagem, descrita como maravilhosa e linda, era o principal atrativo que, por muito tempo, conseguiu mascarar as deficiências estruturais que cresciam internamente. A promessa de acordar com o sol nascendo sobre o "Velho Chico" era o que atraía viajantes, transformando o local numa escolha popular para quem precisava de um pernoite estratégico na longa rota da BR-101.
O Contraste Entre a Beleza Exterior e a Precariedade Interior
Apesar da vista magnífica, a realidade dentro das paredes do hotel pintava um quadro completamente diferente. As avaliações de seus últimos anos de funcionamento são um doloroso catálogo de negligência. Hóspedes descreviam uma sensação de estarem em um "filme de terror", um sentimento alimentado pela visível decadência das instalações. O telhado apresentava danos severos, com madeiras apodrecidas que denunciavam a falta de manutenção. A experiência de alojamento era severamente comprometida por problemas básicos, mas fundamentais.
Os quartos, que deveriam ser santuários de descanso, eram frequentemente fonte de frustração. As críticas apontavam para colchões de péssima qualidade, descritos como desconfortáveis, feitos de espuma de baixa densidade ou tão velhos que rangiam a cada movimento. Problemas de infraestrutura eram comuns, incluindo assentos sanitários quebrados, portas de box que não fechavam corretamente e aparelhos de ar-condicionado antigos, barulhentos e ineficientes. A presença de insetos também era uma queixa recorrente, minando qualquer sensação de conforto e higiene que se espera de um estabelecimento hoteleiro, seja ele um luxuoso resort ou um simples albergue.
Serviços e Comodidades em Declínio
O serviço de café da manhã, um item essencial na avaliação de qualquer tipo de hospedagem, também refletia o estado geral de abandono. Embora alguns hóspedes o considerassem simples, mas satisfatório, outros tiveram experiências extremamente negativas, relatando chegar ao refeitório e encontrar pouquíssimas opções disponíveis, mesmo no início do horário de serviço. A piscina, que poderia ser um grande diferencial e um espaço de lazer para famílias, era frequentemente citada como mal cuidada ou completamente fora de condições de uso. Essa falha em manter as áreas comuns demonstrava uma profunda falta de investimento e cuidado, transformando o que poderia ser uma agradável pousada de beira de estrada em uma decepção para muitos.
Uma crítica particularmente grave mencionada por um visitante foi a manutenção de araras e papagaios em cativeiro nas dependências do hotel. Essa prática, além de eticamente questionável, adicionava um elemento negativo à imagem do estabelecimento, afastando clientes preocupados com o bem-estar animal. A soma desses fatores — instalações precárias, serviços deficientes e questões éticas — contribuiu para uma avaliação geral medíocre, que pairava em torno de 3.6 estrelas, sustentada quase que exclusivamente pela beleza natural de sua localização.
O Fechamento e as Perspectivas Futuras
O Hotel Velho Chico encerrou suas atividades por volta de meados de 2019. Relatos de antigos clientes que retornaram à região e encontraram as portas fechadas confirmam essa data. Um morador local chegou a comentar que a propriedade, que seria do estado, teria sido vendida a um empresário da cidade, com poucas esperanças de que voltasse a operar no ramo hoteleiro. Esta informação ganhou mais corpo com notícias posteriores, que indicam um novo capítulo para o edifício. Em janeiro de 2023, foi noticiado que o Governo do Estado de Sergipe transferiu a propriedade do hotel abandonado para o município de Propriá. A intenção da prefeitura é revitalizar o espaço e transformá-lo em um catalisador para o turismo local, buscando parceiros na iniciativa privada que queiram investir na sua recuperação.
Esta iniciativa traz uma centelha de esperança para o futuro do prédio histórico. A estrutura, que já foi um dos mais importantes hotéis da região, possui um potencial inegável. Se bem restaurado, poderia abrigar não apenas um hotel moderno, mas talvez um complexo com diferentes opções de alojamento, como apartamentos vacacionais ou até mesmo um conceito de hostería de charme. A grande questão permanece: quem terá a visão e os recursos para transformar as ruínas de hoje na glória de amanhã? O desafio é imenso, pois a restauração necessária vai muito além de uma simples reforma, exigindo um investimento substancial para modernizar toda a infraestrutura e apagar a imagem de abandono que se consolidou nos últimos anos. Enquanto isso não acontece, o esqueleto do Hotel Velho Chico serve como um melancólico monumento à beira do rio, um lembrete do que já foi e do que poderia ter sido.